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Os POPs agrotóxicos e a destilação global

Já ouviram falar no fenômeno da destilação global? Neste artigo iremos abordar como alguns tipos de agrotóxicos – os POPs, produzem a destilação global e intoxicam ecossistemas em longínquas partes do globo.

Existe relação entre o aquecimento e destilação global?

A utilização de certos agrotóxicos em países como o Brasil, acarretam consequências em variadas regiões do planeta.

O uso de POPs – Poluentes Orgânicos Persistentes pelo agronegócio nas pastagens tropicais e temperadas geram interferências físico-químicas e contaminações no solo e nos mananciais hídricos das regiões polares.

O que são os POPs

Os Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) são compostos orgânicos sintéticos que apresentam algumas propriedades químicas e físicas nocivas aos ecossitemas e seus integrantes, a exemplo da espécie humana.

Entre as suas principais características fisico-químicas existem a semivolatilidade, a persistência, a bioacumulação e a toxicidade.

Os Agrotóxicos e a destilação global
Estruturas moleculares de três classes de POPs. (Reprodução: Instituto Oceanográfico-USP)

Destilação global e a semivolatilidade

A propriedade dos POPs que possibilita a sua grande mobilidade através da atmosfera é a semivolatilidade. Ao serem utilizados, de forma industrial ou agrícola, estes compostos semivoláteis lentamente evaporam e ficam em suspensão aérea.

As correntes de ar em circulação então transportam essas partículas por longas distâncias até que elas alcancem regiões mais frias do globo, em altas latitudes. As temperaturas mais baixas reduzem a energia cinética das moléculas sintetizadas, que perdem movimento e sofrem condensação.

Esta alteração de estado da matéria, de gasosa para líquida, promove a acumulação por gravidade das partículas no solo e nos mananciais hídricos destas regiões frias, e consequentemente, a sua contaminação.

Este fenômeno, oriundo do uso de POPs na indústria e em agrotóxicos, é conhecido como destilação global, que caracteriza-se pela produção e aplicação dos POPs em regiões tropicais e temperadas, e, após transporte atmosférico de longo alcance, transcorre condensação em regiões frias e longínquas.

Pesquisas identificaram altas concentrações dessas substâncias tóxicas em ecossistemas e em seres humanos de regiões próximas aos pólos, onde as mesmas nunca foram utilizadas.

Agrotóxicos e destilação global
Os POPs agrotóxicos e a destilação global (Reprodução: https://www.blue-growth.org/)

Persistência, bioacumulação e toxicidade

Os POPs apresentam outras características físico-químicas que em conjunto com a semivolatilidade, geram uma série de danos ambientais de difícil remediação, quando o contaminante agrega-se ao solo ou águas subterrâneas.

A Persistência é a tendência de uma substância em permanecer no ambiente por longo tempo pela resistência à degradação química e biológica, inclusive aos efeitos de processos microbianos.

Os Poluentes Orgânicos Persistentes não se deterioram facilmente. Eles resistem à degradação e são altamente estáveis. Estas características possibilitam que os seus componentes perseverem na natureza.

A bioacumulação é a capacidade das substâncias orgânicas sintéticas de se acumular em organismos vivos que os absorvem. O processo pode ocorrer de duas maneiras, ou mesmo simultaneamente:

Direta – quando ocorre assimilação a partir do meio ambiente (solo, sedimento e água); indireta – ingestão de alimentos impregnados dessas substâncias. Nos ambientes aquáticos geralmente ocorrem esses processos de forma simultânea.

O acúmulo progressivo desses poluentes ao longo da cadeia alimentar, entre os níveis tróficos, é conhecido como biomagnificação. Geralmente os predadores do topo apresentam maiores concentrações dessas substâncias em relação aos seres das hierarquias inferiores.

Agrotóxicos e destilação global
Biomagnificação: Os poluentes acumulam-se em maior escala nos predadores do topo da cadeia alimentar (Fonte: Universidade de San Diego)

A toxicidade é o grau ou capacidade de uma substância nociva gerar malefícios para um organismo vivo ou para seus órgãos. Os POPs são agentes tóxicos carcinogênicos, e que podem causar sérios problemas à saúde.

Entre eles é possível elencar alguns tipos de câncer, malformações de nascença, disfunções nos sistemas imunológico e reprodutivo, maior susceptibilidade a doenças e diminuição da capacidade mental.

Relação entre aquecimento e destilação global

Existe uma intima relação entre aquecimento global e transporte de partículas de poluentes orgânicos persistentes para distantes regiões, a exemplo das ilhas oceânicas e zonas polares. O aquecimento global incrementa a evaporação, e proporciona um aumento no transporte e deposição dos POPs em altas latitudes, culminando num aumento do efeito de destilação global.

Portanto, o conjunto de ações que visam a expansão da fronteira agrícola, incluindo desmatamentos, queimadas, implantação de irrigação com incremento do processo de desertificação e utilização de POPs agrotóxicos contribuem com o aquecimento, e promovem o processo de destilação global. Conforme Fernández & Grimalt (2003), estes processos podem contribuir com desajustes superficiais do planeta.

Convenção de Estocolmo

A Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes é um tratado internacional, assinado em 2001, cujo objetivo é a eliminação segura dessas substâncias, e a limitação de sua produção e uso em escala global. Entrou em vigor em 2004, após a ratificação de 50 países, incluindo o Brasil.

Para eliminar ou reduzir as liberações decorrentes da produção e uso intencionais e da produção não intencional dos POPs, a Convenção de Estocolmo exige a adoção de medidas de controle relacionadas a todas as etapas do ciclo de vida – produção, importação, exportação, uso, descarte e destinação final. Por fim, o intuito primordial é a eliminação total do uso dos POPs.

Atualmente 28 substâncias foram incluídas na lista de banimento pela convenção. Entre elas:

  • agrotóxicos (pesticidas, inseticidas e fungicidas), usados para o controle de pragas e incremento da produção de alimentos;
  • químicos de uso industrial, a exemplo de óleos isolantes em equipamentos elétricos;
  • subprodutos não intencionais.

Estas abaixo são as 12 substâncias nocivas inicialmente listadas na convenção (the dirty dozen):

Aldrin – Inseticida organoclorado
Chlordane – pesticide manufaturado
DDT – pesticida sintético
Dieldrin – inseticida
Endrin – inseticida
Heptachlor – inseticida
Hexachlorobenzene (HCB) – fungicida
Mirex – inseticida
PCBs – fluidos isolantes e refrigeração
PCDDs (dibenzodioxinas policloradas) – Dioxina 
Dibenzofuranos policlorados – Dioxina
Toxaphene – inseticida

Implementação da Convenção no Brasil

O Brasil é signatário e participou ativamente, nos anos 1990, das negociações que desenvolveram as Convenções de Estocolmo, Roterdã e Basiléia, que relacionam-se a gestão e segurança de substâncias químicas.

Concordou com o banimento e a adoção de controles no país para o uso de POPs, substâncias químicas de alta periculosidade sanitária e para o meio ambiente.

Em 2015 entrou em ação o Plano Nacional de Implementação da supracitada convenção. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente – MMA, o Brasil seria o primeiro país em desenvolvimento a contemplar no escopo de medidas nacionais, além dos 12 POPs iniciais, os 11 Novos POPs incluídos até a última Conferência das Partes, em 2013 (MMA, 2015).

O mapa abaixo informa os estoques restantes dos POPs agrotóxicos existentes em propriedades rurais de alguns estados da Federação brasileira, após levantamento para registro no final de 2015. A maioria dos estados, contudo, incluindo os da região Centro-Oeste, não informou os estoques de POPs.

Fonte: MMA, 2015 apud Weber & Andrade, 2019

Avanço do uso de agrotóxicos no Brasil

O Brasil é o país que mais utiliza agrotóxicos – herbicidas, pesticidas, fungicidas e defensivos para cultivo agrícola. A liberação e utilização destas substâncias está se alastrando nesta atual gestão.

No ano passado ocorreu recorde histórico de aprovações de agrotóxicos no país, com licenciamento de 475 novos produtos. Neste ano de 2020, até maio, foram registrados 150 novas liberações de substâncias tóxicas, muitas das quais proibidas em outros países (gráfico abaixo).

Brasil: PAÍS DOS AGROTÓXICOS!!
Avanço da aprovação de agrotóxicos no Brasil em anos recentes (Reprodução: reporterbrasil.org.br)

Entre os produtos liberados recentemente está o banido inseticida Fipronil (que danifica o sistema nervoso central dos insetos), e que em 2019 gerou o extermínio de mais de  500 milhões de abelhas.

E o inseticida Clorpirifós, que promove envenenamento por colapso do sistema nervoso do inseto e está associado a má formação cerebral em bebês, podendo acarretar retardos mentais. Este produto foi também banido na União Européia e EUA.

É incerta a real situação dos estoques de POPs no Brasil e o andamento do Plano Nacional de Implementação da Convenção de Estocolmo. Possivelmente, muitas substâncias remanescentes podem estar sendo utilizadas de forma clandestina para alavancar produções agrícolas, já que as fiscalizações de cunho ambiental afrouxaram nos últimos anos.

Referências

BLAIS, J.M. Biogeochemistry of persistent bioaccumulative toxicants: processes affecting the transport of contaminants to remote areas. Canadian Journal of Fish Aquatic Science. 62:236–243pp. 2005

BRASIL. MMA. Plano Nacional de Implementação da Convenção de Estocolmo. 2015. Disponível em http://www.mma.gov.br/seguranca-quimica/convencao-de-estocolmo/plano-nacional-de-implementa%C3%A7%

FERNÁNDEZ, P. & GRIMALT, J.O. On the Global Distribution of Persistent Organic Pollutants. Environmental Analysis. 57:514–521pp. 2003

WEBER, Jaime e ANDRADE, Situação de Agrotóxicos Altamente Perigosos no Brasil. IPEN, 2019.

Imagem da capa: https://www.assentcompliance.com/

Ricardo Borges

Economista, geólogo e músico autodidata. Trabalha com publicidade e consultoria em marketing digital. Criador de conteúdo e pesquisador nas áreas de geociências e astronomia.

8 thoughts to “Os POPs agrotóxicos e a destilação global”

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